15.10.10

Orador da Turma de Ciências Biológicas UFJF 2006-2

Olá a todos, vou postar aqui o discurso que fiz durante a colação de grau da minha turma, e diz muito do que penso sobre ser biólogo, e sobre se formar.

"Antes de dizer qualquer coisa, gostaria de agradecer aos meus colegas de turma pelo enorme presente de poder falar algumas palavras, que expressam parte do que todos estamos sentindo neste momento. Digo “presente”, primeiramente pela honra de estar aqui falando em nome dos meus amigos, mas sobretudo por hoje ser também o meu aniversário.


No momento que me contaram que eu iria ser o orador da turma, várias coisas me passaram pela cabeça sobre o que dizer. Enquanto pensava, fui sendo tomado por lembranças e saudosismo. Quatro anos se passaram e tanta coisa aconteceu em nossas vidas durante o tempo em que pensávamos que seria longo, mas vejam, já estamos aqui.


Voltemos ao início de tudo.


Biologia, do grego Bio (que significa “vida”) e Logos (que significa “estudo”). Aposto que muitos tiveram em algum momento da sua vida essa aula inaugural, em que o professor iniciava a disciplina para os pequenos da 5ª série.


E o tempo foi passando, e todo ano a Biologia estava lá presente em nosso dia a dia estudantil, em certos momentos instigando, em outros nem tanto. E quando chegou o momento de decidirmos o curso para o qual prestaríamos o vestibular, algo nos levou a marcar Ciências Biológicas. Os motivos são únicos e individuais, resultado de toda vivência e aprendizado durante nossa trajetória escolar.


Às portas da universidade no primeiro dia de aula, acredito que todos nós fomos tomados por um sentimento de ansiedade e até certo medo. Era normal. Um novo ciclo se iniciaria em nossa vida, e sabíamos que aquilo iria nos mudar para sempre.


Durante quatro anos, aprendemos que Biologia não se resume ao que estudávamos na escola, e muito menos o simples e puro estudo da vida, no sentido geral e amplo. Descobrimos que nem tudo é tão bonito e emocionante quanto no Discovery Channel e seus documentários, e que engenharia genética é mais simples do que os jornais e filmes de Hollywood querem fazer parecer.


Com o tempo, os motivos pelos quais escolhemos nosso curso foram se tornando esdrúxulos diante das inúmeras descobertas empolgantes e das eventuais desilusões com as quais nos deparamos. Mas com o tempo, novas vontades e novos motivos iam surgindo à medida em que crescíamos e amadurecíamos nossas idéias.


Inúmeros momentos influenciavam nossas descobertas; alguns pequenos, como uma aula, uma prova, uma conversa na cantina. Outros mais duradouros, como os tenebrosos fins de semestre. Todos eles, entretanto, deixaram marcas profundas em nós e ajudaram a definir quem somos hoje.


Nosso aprendizado foi muito além das salas de aula, dos trabalhos e das provas, ele era contínuo durante todo esse tempo. Era aprendizagem de vida, que inclui a convivência, o companheirismo e também a competição. Era rir e chorar juntos, era descontar a raiva e ficar mais calmo, era pedir desculpas, era dar conselhos, era se divertir, era principalmente entender que somos diferentes, porém pessoas com um objetivo em comum, e por isso nos mantivemos unidos.


Hoje então nos formamos oficialmente Biólogos. Quando penso sobre todo esse tempo em que nos esforçamos para chegar a este momento, chego à conclusão de que hoje não nos formamos apenas Biólogos, somos um pouco mais nós mesmos, um pouco mais professores, um pouco mais cidadãos e um pouco mais vivos.


Aquele sentimento que nos tomava no primeiro dia de aula se repete, é a mesma ansiedade que nos toma quando estamos na porta de uma nova fase da vida. E é forte. Acima de tudo, é seguida por um imenso ponto de interrogação. E agora?


Acho que esta pergunta esteve na cabeça de todos nós pelo menos por um instante nesses últimos tempos. “E agora?” E dá um frio na barriga, parece que fica um vazio.


Mas como em todo e qualquer cientista, perguntas sempre vêm acompanhadas de uma enorme vontade de respondê-las. E a perseguição pela resposta e o processo da descoberta são melhores e mais prazerosos do que necessariamente a resposta. Tudo isso ainda parece menor, quando pensamos que a nossa vontade de responder irá com certeza nos incentivar durante boa parte da vida. Sempre haverá perguntas e nós sempre buscaremos respostas.


E assim uma nova gama de possibilidades se abre. Juntamente com elas, uma série de novas responsabilidades. O diploma que nós recebemos hoje é também um contrato que assinamos com a sociedade. Antes de ser um profissional é preciso que estejamos cientes do nosso papel como tal. Ser um Biólogo implica em ter responsabilidade com a prática da ciência, trabalhar para o bem da nossa sociedade e do nosso planeta, implica em ser um professor ciente de sua importância e de sua posição como um formador de opinião, sempre tendo em mente que é possível, sim, criar um mundo mais justo, humano, limpo, e melhor através da educação.


É importante lembrar que a valorização de qualquer profissão depende, principalmente, do compromisso que os profissionais assumem com o que escolheram. Devemos nos orgulhar de nosso ofício e lutar para que ele seja sempre reconhecido e valorizado. Continuar a abrir nosso espaço na sociedade a fim de fazer com que cada vez mais tenhamos o respeito, pelo que fazemos e pela nossa importância.


Hoje, o cenário global nos favorece. Nunca se pensou tanto na importância do meio-ambiente, da saúde e da educação como fatores de transformação social e de sustentação da sociedade moderna. Hoje, cada vez mais a ciência tem ocupado lugar na mídia e nos meios de comunicação livre, e agora também cabe a nós a responsabilidade de zelar pela integridade e pela ética, repudiando qualquer tipo de manipulação e estando sempre dispostos a revelar a verdade.



Muito ainda virá. Podemos ter a certeza de que estamos preparados para enfrentar os desafios que teremos daqui pra frente.


E hoje, neste momento em que celebramos nossa conquista, junto aos nossos amigos e familiares - fundamentais para essa realização, estamos muito felizes. Felizes porque vemos em seus olhos o orgulho de quem presenciou e lutou ao nosso lado durante todo esse tempo. A eles cabe nossa eterna gratidão e nosso compromisso de continuar sendo motivo de satisfação para todos aqueles que nos cercam.


Aos amigos que fizemos, deixamos todo o desejo de sucesso e realização, nossas vidas seguem novos caminhos, que talvez demorem a se cruzar novamente. Mas tenho certeza de que carregaremos em nossa lembrança a amizade que construímos nesse percurso. E o mais importante: desejamos aos nossos amigos principalmente a felicidade, independente do caminho que sigam. Sentiremos saudades...


Muito obrigado a todos! Agradecemos pela oportunidade de estudar em uma universidade federal, pelo empenho dos professores em ensinar e orientar, pelo ombro que encontramos nos momentos difíceis, e principalmente por acreditarem em nós. Somos vitoriosos e dedicamos esta vitória a todos vocês.


Então, para terminar, eu gostaria de ler um pequeno trecho de um poema de Fernando Pessoa:




(...)

Vivam, vivam, vivam

Os montes, e a planície, e as ervas!

Vivam os rios, vivam as fontes!

Vivam as flores, e as árvores, e as pedras!

Vivam os entes vivos _ os bichos pequenos,

Os bichos que correm, insectos e aves,

Os animais todos, tão reais sem mim,

Os homens, as mulheres, as crianças,

As famílias, e as não-famílias, igualmente!

Tudo quanto sente sem saber porquê!

Tudo quanto vive sem pensar que vive!

Tudo que acaba e cessa sem angústia nem nada,

Sabendo melhor que eu, que nada há que temer,

Que nada é fim, que nada é abismo, que nada é mistério,

E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida."

Muito Obrigado.


22.9.10

Uma pequena abordagem eleitoral - Eleições, Ciência e Tecnologia

Olá a todos.

Sei que tem muito tempo que não posto nada por aqui, mas como disse no inicio do blog, o BioConnection é um projeto, e este começa a amadurecer conforme eu também o faço.

Para retomar as atividades do blog, escolhi um tema no mínimo polêmico, para não dizer óbvio. E resolvi colocar em um único post as principais propostas dos três principais candidatos a presidência da republica para Ciência e Tecnologia, de acordo com uma busca superficial no google e meios de comunicação em geral.

José Serra - PSDB


Correio Braziliense 21/09/10:

O candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, defendeu neste domingo (12/9) o aumento no número de vagas nas universidades públicas e o fortalecimento da pesquisa nessas instituições. “A universidade pública tem que ser mais turbinada, de um lado na área de ciência, tecnologia e pesquisa aplicada. Por outro lado, ela tem que se expandir no número de alunos.”


Entre as propostas para ampliar o número de estudantes nas universidades, Serra destacou a ampliação dos cursos noturnos. Segundo ele, desse modo é possível expandir as vagas sem necessidade de uma infraestrutura maior.


“Tem que ter uma política inteligente e não publicitária para a área. Quando é publicitária você aumenta os prédios, mas não aumenta os alunos proporcionalmente”, disse após um passeio com a neta Gabriela pelo Museu Catavento, próximo ao centro da cidade de São Paulo.


Pequeno comentário:

Foi tudo que eu encontrei sobre o assunto partindo do candidato, admito ter sido um pouco decepcionante, mas de uma campanha que desde o início pautou-se em escândalos contra o principal adversário, era de se esperar que o debate político ficasse de lado.
Sobre as declarações me questiono, defender a pesquisa nas universidades sem aumento de estrutura física? Como? Os equipamento precisam de algum lugar para ficar...

Marina Silva - PV


Jornal da Ciência - 30/07/10


O investimento em novas tecnologias e na educação é o caminho para promover as mudanças necessárias para a passagem para uma economia de baixo carbono, de acordo com a candidata do PV à presidência da República, Marina Silva.


A senadora pelo Acre participou, nesta sexta-feira, dia 30 de julho, último dia da 62ª Reunião Anual da SBPC, de um encontro para apresentar suas principais propostas de governo.


Em discurso no auditório da Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal, a candidata do PV reconheceu os avanços do atual governo federal, mas ressaltou a necessidade de ir além. "Numa trajetória de três mil quilômetros, se você andou um, faltam dois pela frente. Temos que fazer um esforço progressivo para completar esses dois mil quilômetros", afirmou Marina.


A presidenciável apontou algumas prioridades gerais para a política de ciência e tecnologia. Entre elas, a continuidade dos investimentos para reforçar as universidades e os centros de excelência e a necessidade de melhorar a educação, sobretudo por meio da capacitação dos professores, "para que os nossos alunos se interessem pelo conhecimento, pela ciência, pela tecnologia", segundo disse em entrevista coletiva após o encontro.


Além disso, Marina defendeu o incremento da cooperação internacional em C&T. "O Brasil precisa sair do velho discurso de lutar pela transferência de tecnologia. A China está fazendo protocolo de cooperação científica. E a gente fica brigando nos fóruns internacionais para ter transferência de tecnologia", disse a candidata do PV. Segundo ela, nos protocolos de cooperação, "o professor aprende, domina os processos, e a gente não fica dependendo de transferência de tecnologia, porque isso não nos leva a lugar nenhum".


Outra direção sugerida pela candidata é uma visão integral sobre a ciência, vista "de forma cada vez mais transdisciplinar e de forma a ajudar os dirigentes públicos a tomarem as decisões corretas". Marina insistiu nesse ponto, quando ressaltou, em seu discurso, que os caminhos para a passagem à economia de baixo carbono já foram apontados por uma visão de longo prazo, oferecida pela comunidade científica. O problema, disse a senadora, é ético e político.
Segundo candidata à presidência da República pelo PV, investimentos em pesquisa básica e novas tecnologias são fundamentais para passarmos a uma economia de baixo carbono, com uma inflexão no modelo global de desenvolvimento

Pequeno Comentário:

O discurso me agrada, apesar da forte temática ambientalista, tentando direcionar boa parte da ciência para um único tema (importante, mas único). Mas o que mais gostei foi a parte da capacitação de professores, realmente a educação básica desempenha um papel fundamental no desenvolvimento científico e tecnológico de uma nação, e são poucos os políticos que tem esta visão. Ficou faltando uma proposta concreta de aumento de recursos.
Sobre o desenvolvimento de tecnologias próprias ao invés de ficar implorando transferência: ousado mas muito positivo.


Dilma Roussef - PT

Jornal da Ciência 28/07/10:

A candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, sugeriu colocar como meta para a área de ciência e tecnologia, caso eleita, investir entre 1,8% e 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento (P&D).


Hoje, o Brasil investe 1,35% do PIB, segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia.


Em encontro promovido pela SBPC, a ex-ministra destacou ainda a importância da integração das políticas de C&T e educação para o desenvolvimento e soberania do país. Segundo Dilma, o "casamento" entre educação e a política de ciência, tecnologia e inovação é "uma das questões mais importantes para que o nosso país dê um passo decisivo na direção de se tornar desenvolvido, uma sociedade inclusiva e mais igual, uma nação soberana".


No discurso de cerca de 50 minutos, a presidenciável disse que não faria promessas, porque suas propostas integram um projeto de desenvolvimento nacional e partem de um patamar (alcançado no atual governo) que oferece alicerces para uma nova era de prosperidade. Dessa forma, as metas anunciadas, segundo Dilma, seriam ousadas porque "meta existe para você correr atrás". "Quando você cumpre, ela deixa de ser meta", afirmou.

Além da elevação dos investimentos em P&D, ela citou o fortalecimento do programa dos institutos nacionais de ciência e tecnologia (INCTs), coordenado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); a expansão dos centros nacionais de pesquisa (Dilma exemplificou com algumas unidades de pesquisa do MCT, mais o Cenpes, da Petrobras, a Embrapa e as instituições de pesquisa das Forças Armadas); e a manutenção do aumento do número de bolsas concedidas anualmente pelo CNPq e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).


"Nenhum país no mundo conseguiu dar um salto sem, de um lado, dar uma estrutura de bolsas adequada e, de outro lado, financiar o estudo", disse Dilma. A candidata colocou como meta chegar a 220 mil pesquisadores mestres e doutores, ressalvando que não tinha certeza se o número "era muito desafiador". De acordo com dados do MCT apresentados pelo ministro Sergio Rezende durante a 62ª Reunião Anual, o Brasil tem cerca de 150 mil pesquisadores.


As metas incluíram ainda a implantação de 450 novos centros vocacionais tecnológicos (CVTs), "localizados preferencialmente nas cidades polo", a expansão de bolsas para engenharia e a busca pelo domínio de tecnologias estratégicas, como microeletrônica, fármacos, combustível nuclear (com fins pacíficos), fabricação de satélites e veículos lançadores.


Dilma citou a importância do programa espacial para o monitoramento ambiental. "Sem esse instrumento, nós não conseguimos fazer o combate ao desmatamento em todos os biomas brasileiros", afirmou. Mais cedo, em entrevista à imprensa, ela negou que haja leniência em relação às exigências ambientais das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). "Nós temos levado a sério as questões ambientais das obras do PAC", disse.
A candidata do PT à Presidência da República participou de encontro na 62ª Reunião Anual da SBPC, na tarde desta quarta-feira, dia 28, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal

Pequeno Comentário:


Aumento de verbas: ponto positivo
Aumento de bolsas: ponto positivo
"Casamento" entre educação e ciência: ponto positivo, mas falha ao não incluir a educação básica nesse casório.
Fortalecimento das instituições de pesquisa: Ponto positivo
Meta de 220 mil pesquisadores: pouco, comparado com os EUA com seus 1.400.000 (sem contar os engenheiros), mas chega a patamares próximos ao da Coréia do Sul. (1)

Espero que tenha sido uma leitura proveitosa para todos, e outros comentários sobre as propostas que eu mencionei e outras propostas que vocês achem por aí serão bem-vindas na seção de comentários.

23.10.09

Lembrete: Os microrganismos e a recuperação de áreas degradadas


Entende-se como área degradada aquela que, após algum distúrbio (esse a maioria das vezes provocado por ação do homem) encontra-se em algum tipo de desequilíbrio , não conseguindo manter um ecossistema saudável e compatível com o encontrado antes da ocorrência de tal distúrbio.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, quando se pensa em recuperação de áreas degradadas, o principal objetivo não é fazer aquele local tonar-se exatamente igual ao que era antes, as vezes nem mesmo parecido, mas o que mas tem sido feito é a aplicação de técnicas que enriquecerão aquele ambiente e desta forma a própria regeneração da natureza de conta de recuperar um ecossistema doente.

Neste contexto, o que vemos são sempre técnicas voltadas para o plantio de mudas (quantas empresas por aí não saem plantando mudas a torto e a direita?), que por suas características conseguiram reiniciar ou acelerar o processo de sucessão ecológica naquele sistema, e desta forma, com algum tempo e cuidado, chega-se a um resultado satisfatório.


Mas o que muitas pessoas esquecem é o papel importante que os microrganismos do solo exercem neste método. Principalmente porque são eles (bactérias e fungos) que desempenham um dos processos mais importantes na manutenção de um ecossistema. A decomposição, e consequente reciclagem de nutrientes são fundamentais para que não somente aquelas mudas cresçam e se desenvolvam, mas que também deixem descendentes, e mantenham aquele sistema saudável.

Além disso microganismos podem ser importantes fatores de estimulo do crescimento das plantas, já que podem agir como fixadores de nitrogênio atmosférico (nutriente essencial para o desenvolvimento vegetal), podem alterar o estado de compactação do solo, e também melhorar a retenção de água pelo mesmo, entre outro benefícios.

Uma técnica muito comum é a plantação de mudas com inóculos de microrganimos pré-inseridos, ou também a realocação de solo de uma área não degradada (quando disponível) para a área de plantio.

Só pra lembrar um pouco do micromundo que as vezes esquecemos mesmo.

4.9.09

Não existem genes do câncer!


Looping de Replicação do DNA


Hoje durante uma conversa com amigos escuto a seguinte afirmação.. "Não entendo como ainda não descobriram a cura do câncer. Se até já sabem quais são os genes que causam, já deveriam ter arrumado alguma forma de impedir isso."

Normal, afinal de contas, se eu ficasse escutando a Fátima Bernardes dizendo que "cientistas isolaram o gene que causa câncer disso ou daquilo" praticamente toda semana também pensaria assim.


Mas afinal existem genes que causam câncer?

Não neste sentido literal... (ou pelo menos ainda não foram descobertos) o que temos são genes que em algum determinado momento da vida, são danificados, e começam a atuar (serem expressos) de forma descontrolada, fazendo com que a célula entre constantemente em divisão (mitose), originando com o tempo um tumor.


Por exemplo, algumas das principais proteínas responsáveis pela regulação do ciclo celular em células de mamíferos são as Ciclinas e as CDK's. Juntas elas formam um complexo proteico fosforilador que irá basicamente dar iníco a fase S do ciclo celular (fase de replicação do DNA, necessária para que existam duas cópias da molécula, e assim a célula poderá se dividir).


Supondo que por algum motivo, ocorra uma mutação no gene de uma das CDK's, e esta comece a ser super expressa, se isso não for corrigido por proteínas da própria célula ela se tornará uma mutante com o ciclo celular desregulado, e, se essa mutante não for identificada pelo sistema imune e eliminada por células especiais (como as Natural Killers), poderá se desenvolver um tumor.

Mutações e erros no DNA, ocorrem a todo instante no nosso corpo, mas existem mecanismos afim de impedir que o câncer se desenvolva, e a eficiência desses mecanismos variam de pessoa para pessoa, e aí nós temos uma das possibilidades de PREDISPOSIÇÃO GENÉTICA.

Entenderam a diferença? Predisposição não significa possuir um gene causador de câncer, e sim, uma tendência a manter células tumorais vivas, e isso também devido à vários fatores.

Não seria muito ilógico, evolutivamente falando, que genes causadores de câncer (no sentido literal da frase) existissem? Ainda mais em grande quantidade...

17.8.09

Probióticos no mercado, o que você come e por que?

Se você acha que bactérias são seres vivos malignos, que só servem pra causar doenças e infecções, e apodrecer coisas, e que se você levar uma vida limpa, cheia de cuidados e paranóia você estará livre delas, saiba que você está redondamente enganado.
A microbiota bacteriana é parte fundamental do nosso organismo, e todos nós somos um imenso habitat para uma grande variedade das mesmas. Essa relação normalmente é equilibrada, mas durante nossa vida ocorrem pequenos desequilíbrios, devido à vários fatores, e estes podem causar algumas doenças oportunistas.
Algumas espécies que nos habitam, são tão importantes para um bom funcionamento do organismo, que se tornaram alvo de pesquisas e também obviamente do interesse das indústrias alimentícia e farmacêutica.

Lactobacillus spp

Estas são os chamados, microrganismos
probióticos. Existem vários conceitos para se definir um probiótico, mas todos eles apontam para uma característica fundamental, "a capacidade de trazer algum benefício ao hospedeiro, enquanto presente no mesmo", e estes podem ser os mais variados possíveis.
Para citar alguns exemplos temos, a melhora da capacidade de absorção de nutrientes no intestino, a produção de alguns nutrientes, atividade anti-microbiana contra possíveis patógenos (seja esta por meio de substâncias produzidas pelo microrganismo, ou por meio de competição), estimulação do sistema imune do hospedeiro e até mesmo atividade anti-carcinogênica.
Desta forma, vários produtos hoje no mercado contêm bactérias ativas (ou só dizem que têm), que são capazes de colonizar, mesmo que por um período determinado de tempo, o trato intestinal de humanos, e desta forma nos trazer alguns desses benefícios que eu citei, ou outros.
O objetivo desse post foi reunir alguns produtos que estão no mercado brasileiro, e relacioná-los à sua espécie de probiótico, porque informação sobre o que estamos ingerindo nunca é demais, não é mesmo?



- Leite fermentado Yakult

O produto é o mais antigo no mercado, criado em 1935 no Japão, pelo Dr. Minoru Shirota, que também foi quem conseguiu isolar a linhagem de
Lactobacillus (gênero de bactérias láticas) utilizado até hoje na sua produção. Tal espécie é a Lactobacillus casei Shirota e sua principal atividade no intestino humano é evitar o crescimento de bactérias nocivas, deixando a microbiota mais equilibrada.
O Yakult foi de grande importância na época, no combate a infecções intestinais, muito comuns em crianças no Japão, resultando em uma diminuição na mortalidade infantil.

- Leite Fermentado Chamyto (Nestlé)

Contém duas espécies diferentes de bactérias láticas,
Lactobacillus johnsonii e Lactobacillus helveticus. A primeira possui uma grande variedade de prováveis efeitos probióticos, entre eles uma alta capacidade de evitar úlceras estomacais causadas por outra bactéria a Helicobacter pylori. Já a segunda é utilizada na fabricação de vários tipos de queijo, e existem estudos que relacionam sua ingestão juntamente com leite fermentado com uma redução da pressão arterial, mas também existem estudos contradizendo tal propriedade.

- Leite Fermentado Parmalat

Contém três espécies de bactérias, sendo duas láticas propriamente ditas e outra somente pelas suas caracteristicas metabólicas que são:
Lactobacillus casei, Lactobacillus acidophilus e Bifidobacterium lactis. L. acidophilus é comumente utilizada como probiótico pois produz vitamina K, lactase (digere a lactose), além de compostos anti-microbianos. Já B. lactis, também classificada como B. animalis lactis, tem de acordo com alguns estudos ação sobre o transito intestinal.

- Leite Fermentado Aromatizado Batavito (Batavo)

Contém somente
L. casei na sua composição.

- Iogurte Biofibras (Batavo)

Contém
B. lactis e L. acidophilus

- Iogurte Activia (Danone)

Esse é um caso interessante, a Danone se apropriou de vários nomes (um para cada país diferente) para suas bactérias, que no Brasil são conhecidas como Bacillus danregularis, o que na verdade não passa de
B. lactis


Esses são os principais produtos que encontrei, todos como puderam notar são laticínios, existem também outras marcas e outras bactérias que poderiam ser citadas, mas preferi me limitar as principais
.
Lembrando também, que normalmente tais produtos já vem na dose diária recomendada, e não adianta se entupir com eles que o efeito não será melhor, podendo ser até pior (que tal uma baita diarréia?).
Uma alimentação saudável e rica em fibras também ajuda, já que as bactérias probióticas tem que se alimentar de alguma coisa, e é você quem fornece, são os chamados prebióticos.
É importante lembrar que existe um numero mínimo de bactérias necessárias de serem ingeridas vivas, para que os microrganismos consigam passar pelo ambiente ácido do estômago e atinjam o intestino, onde exercerão seus papéis probióticos. E esse numero decresce conforme o tempo que o produto fica em armazenamento (resfriado a 4ºC), ou seja, conforme o tempo vai passando o produto vai perdendo sua propriedade.
CONFIRAM AS DATAS DE VALIDADE E FABRICAÇÃO! E bom proveito!



Leia mais em: Aspectos tecnológicos de alimentos funcionais contendo probióticos


11.8.09

Processo enzimático na reciclagem de papel - uma alternativa inteligente


Biotecnologia tira tinta de papéis velhos para reciclagem

Redação do Site Inovação Tecnológica - 02/09/2008

Reciclar papéis em escala industrial não é uma tarefa tão simples quanto alguns programas educativos ingenuamente deixam transparecer. Para que os papéis reciclados possam competir de igual para igual com o material novo há um grande desafio a ser vencido: retirar a tinta de impressão dos papéis velhos.

O processo atualmente disponível para retirar essa tinta envolve o uso de grandes quantidades de produtos químicos que, além de serem caros, são altamente danosos ao meio ambiente, um fator que pode simplesmente anular os ganhos com a própria reciclagem.

Tratamento enzimático

Mas os dois problemas podem estar com seus dias contados. Cientistas da Universidade da Malásia descobriram que um processo biológico poderá baratear o processo de retirada da tinta dos papéis velhos, incentivando a reciclagem, e minimizar o impacto ambiental dessa reciclagem.

A tecnologia ambientalmente correta se baseia no uso de enzimas, que são moléculas biológicas. O tratamento enzimático é mais eficiente do que o processo químico, retirando uma maior quantidade de tinta do papel usado, e não afeta as propriedades físicas do papel.

As enzimas foram preparadas com a produção do Bacillus licheniformis BL- P7 em um meio de cultura líquido contendo palha de arroz e restos de fécula.

O processo de retirada da tinta das fibras do papel é facilitado pela modificação enzimática das superfícies das fibras. Isso permite também a retirada de grandes partículas de tinta, que normalmente não são atingidas pelo tratamento químico.



Resultados e Discussão:

Dei uma pesquisada por aí sobre esse método que sinceramente nunca tinha ouvido falar, e achei importante divulgar um tecnologia, mesmo que ela já venha sendo utilizada na industria de reciclagem a algum tempo.

As vantagens da processo de retirada da tinta por processos enzimáticos não se restringe unicamente à uma maior eficiência e menor impacto ambiental, podemos citar também uma redução nos custos, nos gastos energéticos e algumas vantagens operacionais, já que o processo agride muito menos os equipamentos.

Pessoalmente gosto muito da aparência de um papel reciclado, mas é inegável que seu uso é restrito a algumas atividades que demandam uma aparência mais rústica e artística, uma melhora de qualidade do mesmo com certeza o tornaria mais competitivo, mas sempre se aliando a um preço mais acessível também obviamente.

Pelo que pude perceber existem várias enzimas atualmente no mercado, e todas possuem eficiência diferentes no que se trata á vários aspectos do papel, já que as enzimas que fazem tal trabalho são Celulases (degradam celulose, material do qual o papel é feito) ou semelhantes, o papel reciclado pode apresentar uma perda de sua integridade e rigidez devido a perda de qualidade de suas fibras.

Ao que me parece, as industrias têm buscado novas enzimas, ou misturas das mesmas afim de otimizar o processo, e isso logicamente, tem incentivado muito a pesquisa neste campo.

PS: Leiam o post do Átila (@oatila) no blog Rainha Vermelha sobre o jornalismo científico e depois testem a mesma coisa sobre este assunto. Digitem qualquer parte da matéria no Google e verão a quantidade de matérias que simplesmente traduziram o release (inclusive esta que postei aqui).

Leia mais em:

Preliminary studies of enzymatic deinking

EDT - Enzymatic Deinking Technologies

8.8.09

Não basta produzir!

Biodiesel ocioso na UE

(Do portal energiahoje.com)

A capacidade de produção de biodiesel na União Europeia deverá aumentar 30,6%, de 16 bilhões de litros em 2008 para 20,9 bilhões de litros em 2009. Se depender dos recentes resultados da produção do biocombustível no bloco, divulgados pelo Comitê Europeu de Biodiesel (EBB), a produção deverá ficar bem abaixo daquilo que pode ser produzido. Em 2008, a produção respondeu por 48% da capacidade instalada da UE.

A ociosidade já vinha aumentando desde 2007, quando a produção respondeu por 55% da capacidade instalada do bloco, contra 80% em 2006. Segundo o EBB, o aumento na capacidade ociosa nos últimos anos pode impedir que o bloco alcance a meta de ter 10% de biocombustíveis no consumo de combustíveis para transportes até 2020.

Apesar do aumento na capacidade ociosa, a produção da UE cresceu 35,7% em 2008, em, comparação com 2007. Ao todo, foram produzidos 7,7 bilhões de litros, 1,81 bilhão de litros vindos da França, a segunda maior produtora do bloco.

Os franceses encerraram 2008 com uma produção quase duas vezes maior que a de 2007. Já a produção da Alemanha, a maior produtora da UE, caiu 2,5%, para 2,82 bilhões de litros. Terceira colocada, a Itália produziu 595 milhões de litros, alta de 64%.

O biodiesel respondeu por 78% dos biocombustíveis consumidos pelo bloco no ano.


Plantação de Colza


Resultados e Discussão:

Esses numeros são do meu ponto de vista positivos por um lado, mas por outro mostram o quão equivocada pode estar a política da produção dos biocombustíveis. E quanto a isso o título do post é claro: "Não basta produzir!" é preciso também incentivar o consumo, em detrimento dos derivados de petróleo, incentivar também o aperfeiçoamento e barateamento das tecnologias de transporte e energia que consomem biocombustíveis.

O que vejo são políticas de produção soltas ao vento, que tem sua base na demanda da moda ambientalista.

Se assim como no Brasil, o biodiesel europeu também é adicionado ao Diesel mineral, não é tão difícil se ter uma estimativa do consumo durante um determinado período de tempo. Então o que está acontecendo? Porque toda essa ociosidade dos produtores? Investimento mal planejado? Será que o fato da produção de Biodiesel lá (proveniente principalmente da colza) ser duas vezes mais custosa do que a do Diesel mineral tem algo a ver com isso?